Quicabo - Angola

Quicabo - Angola
Foto de Vasco D'Orey, montagem de Garcia Ferreira

Encontro em Castro Daire

FOTO DE FAMILIA

FOTO DE FAMILIA

COUVELHA - A Vida... para além de Angola

Camaradas,


Começo esta crónica a dar os PARABÉNS ao Soares Ferreira pela forma como nos recebeu na sua terra, excelente almoço (por certo concordarão comigo que foi dos melhores que já saboreámos nestes nossos encontros), servido com muita qualidade e profissionalismo.
Fiquei extremamente sensibilizado com um aspecto que de certeza passou despercebido a muitos de vós, o tradicional bolo (diga-se desde já de excelente qualidade) alusivo ao Batalhão, estava decorado com o tipo e logótipo que abre esta página, agradeço a quem teve esta iniciativa (por certo o Soares Ferreira), que me tocou particularmente.



Pois é Companheiros, o dia D chegou bonito, com muito sol, para animar mais um encontro anual dos Camaradas do Batalhão de Caçadores 3838. A romaria em direcção a COUVELHA começou bem cedo, de todos os cantos de Portugal foram chegando os Companheiros e amigos para mitigar as saudades da longa ausência de um ano passado.
Para os Companheiros da Companhia de Caçadores 3340 este foi um encontro bonito, revimos dois Camaradas que nunca tinham comparecido a estes encontros, falo do RICO e do MAGALHÃES, obrigado pela vossa reentrada nesta grande família.






Abraçados os presentes, lamentadas as ausências, seguimos para a Igreja de Couvelha onde o nosso padre ZÉ celebrou a tradicional missa.





Durante o almoço sempre bem regado com o espumante “bruto” da região, embora para aqueles que iriam conduzir se aconselhasse moderação no seu consumo, foram vividas as habituais manifestações de alegria por estarmos de novo reunidos, recordamos vivências passadas, comentamos episódios bons e menos bons e até fizemos algumas confidências.



O Oliveira foi-nos passando a mensagem de que o ex-alferes Pereira gostaria que o próximo encontro se realiza-se na sua terra, CASTRO D’AIRE, ficamos a aguardar a confirmação desta informação assim como os seus pormenores.

Seguidamente tomou a palavra o nosso camarada Silva que mais uma vez nos brindou com os seus dotes oratórios e que dirigiu algumas palavras sobre os Camaradas que já não se encontram neste mundo mas que continuam connosco para sempre, foram comoventes os versos dedicados ao saudoso Camarada Virgílio que desde sempre esteve nestes nossos encontros, realizando grande parte deles e que foi um dos motivadores para que o Soares Ferreira se encarregasse do encontro deste ano, que descanse em paz junto de todos os Companheiros que já nos deixaram.

Por fim usou da palavra o nosso Comandante que como sempre realçou o prazer de estar presente, embora como o próprio afirmou já com algumas dificuldades, mas que espera estar no nosso seio em muitos mais. Obrigado pela sua presença, carinho e amizade, pode acreditar que todos lhe retribuímos em dobro.



Feita a vindima, lavados os cestos e o lagar, regressámos a casa satisfeitos pelo encontro vivido.

Grande abraço para todos os que disseram sim e também para aqueles que por um motivo qualquer não estiveram presentes.

Garcia Ferreira


O MEU PELOTÃO


Era o meu pelotão o terceiro da C.Caç 3340, pertencente ao B.Caç 3838, que tinha como comandante o Alf. Mil.  Magalhães, secundado pelos furriéis Paim Vieira e Lourenço, sendo também composto por alguns cabos, como o Coelho e o Carvalhito (este mais tarde transitou para a messe de sargentos), e por vários soldados/praças, alguns, numa pequena percentagem, sendo originários de Angola.
 
Embora organicamente cada pelotão de combate (também se designando por grupo de combate),  devesse ser formado por um alferes, 3 furriéis,  3 a 4 cabos e o restante por praças, num efectivo total de cerca de 33 militares, o certo é que a generalidade das companhias de caçadores iam incompletas para os vários teatros de guerra. Só já no terreno de actuação é que eram complementadas com os efectivos em falta, normalmente incorporando tropas/praças, naturais do território.
 
Quanto aos sargentos, raras eram as companhias operacionais que, nos seus 4 pelotões, tinham mais que 2 furriéis por cada um, para já não falarmos das patentes superiores, nomeadamente a nível de sargentos, tenentes e majores do quadro, isto é, não milicianos, dado a escassez de militares, desse tipo, para preencherem os respectivos lugares orgânicos.

Mas voltando ao meu pelotão, também ele foi complementado com 8 praças, todas de raça negra, que também deram o seu melhor e o seu  prestimoso contributo para que, no final da nossa comissão, todos pudéssemos dizer "dever cumprido". É certo que, por vezes, esta tropa negra se revelava menos colaborante, nomeadamente quando, em acções estritamente militares, se recusavam a incendiar as palhotas, tabancas ou os aquartelamentos no mato, ou quando se procedia à destruição das lavras e culturas do IN.

Tal atitude já na altura era facilmente desculpável, por compreensível, dados os laços de sangue, e até de parentesco, que eventualmente poderiam ligar os contendores opositores entre si. Com provável certeza, cada um dos nossos soldados negros, agora e por força de circunstancialismos diversos, tinha um amigo, um parente, quiçá um familiar, que guerreava no mato, obrigado ou não, contra as nossas tropas.  Não obstante, eles estavam do mesmo lado da nossa barricada. Como poderíamos,  então, deixar de não ser sensíveis a este antagonismo vivido diariamente por cada um dos nossos soldados negros?!

De qualquer modo, foi no seio deste maravilhoso e dedicado grupo de combate que vivi dos mais gratificantes momentos da minha juventude. Numa altura em que se construíam os primeiros projectos de vida, o serviço militar obrigatório consistia, para qualquer jovem, num interregno forçado, numa barreira intransponível impossível de contornar, quando não num colapso total quando nos atingia o infortúnio da morte.

Para que conste, e em honra desses valorosos soldados do 3º pelotão da 3340, aqui se mencionam os seus nomes (os ainda não esquecidos, porque infelizmente o nome de alguns já o tempo conseguiu esquecer). De uns e de outros fica a grata memória das suas pessoas e a eterna gratidão por me acompanharem nesse dito interregno de nossas vidas: Alf. Mil. Magalhães, Quadrado, Ribeiro, Gonçalves, Coelho, Furriel Lourenço, Mónica, Carvalho, Carvalhito, Soares, Bernardo, Furriel Paim Vieira e os outros.

Lourenço, ex-furriel da 3340.

NAS LAVRAS DO QUIJOÃO

Naquele dia o despertar foi mais cedo, cerca das 4 horas da manhã. O cozinheiro preparara o pequeno-almoço para o 3º e 4º pelotão da Caç. 3340, à base de café com leite, pão e manteiga. Depois desta pequena refeição, as dos dois dias seguinte seriam rações-de-combate.
 
A refeição ligeira foi tomada em silêncio,  conjuntamente com todos os graduados, apenas se ouvindo o som característico do gerador a gasóleo que fornecia a electricidade a todo o aquartelamento,
 àquela hora ainda adormecido.

Ainda dentro do quartel, à beira do depósito da água, subimos para as viaturas que nos aguardavam, uma berliet e vários unimogs, tendo como destino mais uma "operação", desta vez para os lados do QUIJOÃO, uma zona de guerra considerada relativamente pacífica.   
 
Situava-se o nosso objectivo a algumas boas dezenas de quilómetros de Quicabo, já em plena floresta-galeria dos Dembos, por onde circulava, em sucessivos meandros, o rio Dange até chegar às Mabubas, local onde fora construída uma barragem eléctrica, indo depois desaguar no Atlântico, por alturas do Cacuaco.

Entretanto já abandonáramos as viaturas, que haviam regressado ao quartel, passando a calcorrear a picada, com todas as cautelas, rumo ao previsto objectivo, por entre capim alto e ainda viçoso, entremeado de árvores rasteiras e esparsas, até chegarmos à zona em que a savana deu lugar á floresta tropical.

Entrados na mata densa, em "bicha de pirilau" que se estendia por várias centenas de metros, logo perdemos o trilho por onde seguíamos, obrigando o homem, que seguia na frente, a abrir caminho á catanada, de forma a abrir passagem por entre o emaranhado de lianas e pequenas plantas que cresciam, a custo, debaixo daquele extenso e quase impenetrável dossel, formado pelas copas das árvores que almejavam alcançar a luz do sol.

Subíamos a custo uma ravina quando, de repente, toda a extensa coluna, qual baralho de cartas em dominó, se agachou apressadamente, começando pelo princípio até chegar até ao último homem da coluna. Sucedera que o guia,  um ex-guerrilheiro, que encimava a coluna, munido de uma pequena verdasca,  detectara um invisível "fio de tropeçar", atado a um pequeno arbusto, que continuava, perpendicularmente ao trilho, para o interior da mata.
 
Na altura ia integrado na coluna um alferes, que julgo chamar-se Fernandes, que estava a tirar o curso para capitão  (um curso acelerado para obtenção de comandantes de companhia), que se dispôs de imediato a apurar onde é que o fio-de-tropeçar ia dar,  se a uma mina anti-pessoal ou a uma armadilha para animais.
 
Cauteloso como se impunha, o dito alferes seguiu vários metros o fio até que, inopinadamente, se depara com um guerrilheiro encostado a uma árvore, ainda dormitando sossegadamente.  Tão inesperado encontro causou entre ambos um corrupio de calafrios, sendo o guerrilheiro de imediato dominado, com a advertência de que não poderia fazer qualquer barulho ou tentasse fugir, caso em que seria de imediato abatido.
 
O guerrilheiro, um jovem rondando os 18 anos,  desarmado, estava de vigia num posto avançado, sintoma de que o acampamento que procurávamos já não estaria longe, e, sobre a árvore frondosa em que se encostara e dormia, pendia um enorme latão que seria percutido, por meio de um engenhoso sistema de alavancas, logo que alguém tropeçasse no fio que atravessava o pequeno trilho.

Prosseguida a marcha, agora mais acelerada de forma a alcançarmos rapidamente o objectivo, cientes de que conseguíramos não ser detectados e que o "novo" guia, depois de uma rápida "lavagem ao cérebro", nos conduziria lá sem qualquer percalço,  alcançámos, em cerca de duas horas,  uma clareira na floresta, o nosso suposto objectivo.
 
Diante de nós, ainda acobertados pela mata,  estendia-se uma vasta clareira, que descia em declive até a um pequeno riacho, para logo continuar a subir na outra margem até à outra orla da floresta. Esta clareira, assemelhando-se a uma pequena ilha na imensidão do denso arvoredo, teria cerca de 500 metros de comprido, ao longo do regato, e cerca de 400 metros de largura, divididos entre as duas margens.
 
Na margem oposta do ribeiro trabalhavam umas mulheres nas lavras e, de quando em quando, viam-se dois ou três guerrilheiros armados que, aparentemente, vinham despreocupadamente buscar água ao ribeiro para logo retrocederem e se sumirem na orla da mata.

Foi então que foi decidido montar um golpe de mão aos guerrilheiros, para o que se formaram duas secções, uma de cada pelotão, que, ocultadas pela mata,  contornariam a clareira para aparecerem,  de surpresa, por detrás dos guerrilheiros e os apanharem à mão ou, caso estes tentassem fugir, fossem encaminhados para a boca do lobo ou seja que se introduzissem na mata onde se encontrava emboscada a restante tropa.

Na execução desta estratégia,  iniciou-se o previsto envolvimento contornando a orla da mata, após o que aparecemos de surpresa por detrás dos guerrilheiros, abrindo de imediato fogo para intimidação. Estes então correram na direcção do ribeiro e iniciaram a subida para a orla da mata, onde eram aguardados pela nossa tropa.
   
Após o enorme fogaçal que se seguiu, donde teriam necessariamente resultado algumas baixas ao IN, iniciámos então,  e a corpo aberto, a travessia da clareira em direcção às nossas tropas, cientes de que teria havido alguns capturados e mortos, embora se estranhasse aquele fogo nutrido, nomeadamente por o mesmo pôr em risco a vida dos camaradas que se encontravam no meio das lavras.

Qual não foi o nosso espanto ao sabermos que a tropa emboscada não dera um único tiro, pois todo aquele tiroteio provinha afinal de um numeroso grupo de guerrilheiros, o qual se havia também emboscado, mesmo ao lado da nossa tropa, com a intenção de capturar ou matar os militares agressores.

Em face deste inusitado desfecho bélico, de que felizmente não resultaram quaisquer baixas ou feridos, ficou-se sem saber se tal fora mera obra do acaso ou da sorte, ou se a presença da nossa tropa só foi denunciada após o inicio do tiroteio,  dando assim origem a que o IN se retirasse apressadamente.

O certo é que a presença da nossa tropa fora detectada na zona, assim se gorando o efeito surpresa, inviabilizando um maior sucesso operacional.

Lourenço, ex-furriel da 3340

AINDA AS SETE CURVAS...

Com referência ao texto da autoria do amigo ANICETO PIRES, vou tentar complementá-lo.

Efectivamente no dia anterior, ao cair da tarde e quando já se anunciava a noite, logo após a ceia, tomada na messe dos sargentos, viemos, um grupo de amigos, para a respectiva esplanada:  um dos furriéis que com o seu pelotão, oriundo do Caxito, reforçava a CAÇ.3340, eu  próprio e mais dois furriéis.
Enquanto o furriel do Caxito, de quem não recordo o nome, pegava na sua viola e dedilhava algumas canções, nós outros bebericávamos uns whiskies e íamos deixando passar o tempo, absortos nas melodias que íamos ouvindo.
O dito furriel do Caxito, quando se fartou da viola e da nossa pouca atenção, entrou nas nossas conversas que, resumidamente, versavam sobre os 24 meses que estavam prestes a findar, ao invés dos seus poucos meses ainda de mato. Nós éramos uns sortudos, porque no dia seguinte completávamos a nossa comissão em Quicabo, enquanto ele e o seu pelotão ainda lá continuariam a batê-las.
Já noite bem entrada, despedimo-nos com um sorriso de gozo nos lábios, lembrando ao ainda maçarico que também chegaria o dia, para ele, do final da sua comissão. Mal sabíamos nós que aquela noite também seria, para ele, a sua última noite.
Chegado novo dia, cada pelotão regressou às suas tarefas diárias, sendo que ao pelotão do Caxito, chefiado pelo comparsa do dia anterior, foi incumbido de ir escoltar uma coluna da JAEA.
Tratando-se do último dia dos "velhinhos", o Feijão, pediu para ir integrar o pelotão do Caxito, substituindo o respectivo "transmissões", pois não queria regressar ao "puto" sem pegar numa arma e não ter saído do "arame". E lá foi ele, todo garboso, integrado num pelotão de combate.
 No regresso a Quicabo, na zona das SETE CURVAS, o nosso amigo Feijão e toda a tropa sofreu uma forte e mortífera emboscada.  Do primeiro unimog morreu logo o respectivo furriel, o amigo da noite anterior, que ficou sentado ao lado do condutor, dois soldados de negros,  não aparecendo o condutor, que era o Damas, não se sabendo do seu paradeiro. Os restantes mortos aconteceram no segundo unimog, que vinha a meio da coluna, não chegando a entrar na zona de morte o terceiro unimog. A força do combate teve o seu epicentro na zona onde seguia o unimog do transmissões Feijão, onde este e o seu colega enfermeiro travaram duro duelo com os atacantes, até chegarem reforços que os pôs em fuga.   É de notar que o dito pelotão, sendo formado por tropas oriundas de Angola (negros), à excepção do seu comandante (furriel), dos condutores, do enfermeiro e do transmissões, pouca ou nenhuma resistência terão oferecido.
De imediato foi pedida a intervenção da força aérea que disponibilizou 4 helicópteros,  sendo um héli-canhão.  Foi nestes helicópteros que duas secções de combate,  chefiadas pelos furriéis Rico e Lourenço,  do 1º e 3º pelotão da 3340, iniciaram então uma perigosa caça ao homem, nomeadamente procurando interceptar o grupo inimigo e, eventualmente, resgatar o condutor DAMAS.
Do ar, apenas vislumbrámos, durante dois dias, algumas fogueiras no meio da floresta, tabancas e lavras, mas do inimigo nem vivalma. Ficámos pois sem saber o que teria acontecido ao DAMAS, se era vivo ou morto. Só mais tarde, já depois do 25 de Abril, soubemos que havia sido capturado (o único), que ouviu perfeitamente os helicópteros que andavam à sua procura e que, em cerca de três dias, terá chegado ao Congo, em marcha forçada, tendo sido posteriormente libertado na troca de prisioneiros.
Assim terminou a nossa comissão, em Quicabo, de uma forma algo inesperada, deixando-nos a todos com uma profunda tristeza em vez da habitual incontida alegria, velando os mortos na capela de Quicabo e deixando ainda mais receosos, do seu futuro, aqueles que nos vieram render.

Lourenço/furriel da C.Caç. 3340

SETE CURVAS - 14MAR1973

O texto que se segue é da autoria do Companheiro Aniceto Pires, condutor auto-rodas, e recorda um dos dias mais negativos da nossa campanha em Angola, que o diga o Companheiro Lobo da Silva que ainda hoje traz dentro de si o estigma deste dia.

Garcia Ferreira
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Hoje vou esperar que chegue a meia-noite e esperar por mais um dia que me traga a memória…

Vou esperar, olhando as horas tranquilamente, que acabe de percorrer mais um ciclo do tempo solar.

Antes de entrar…
Mergulhei-me através da memória que o tempo faz questão de me fazer debruçar no parapeito da saudade, e dele acenda, para iluminar os que para trás ficaram, trazendo-os de volta para nos reunir, só possível na nossa imaginação.
Ainda é dia treze, silenciosamente vai chegar o dia catorze, uma data que ainda perpetua na minha memória.
Estávamos em pleno mês de Março, já lá vão uns tantos anos, o dia treze também tido como dia da “sorte” ou mesmo dia do “azar” não quis nada connosco.
Os dias são todos recheados, de sorte e de azar, de surpresas ou imprevistos bons e maus, quando alguém está protegido pela sorte, outros certamente estarão protegidos pelo azar, ou desprotegidos pela sorte.

Entrei…
Catorze de Março de 1973, era o meu último dia operacional em teatro com cenário de guerra. Para quem o duvidava, aconteceu. A maior parte de nós iria fazer ainda os vinte e três anos de idade. Ainda éramos crianças.
Ao inicio da manhã daquele dia, juntamente com um grupo de combate, partimos de Quicabo para mais uma missão igual a tantas outras. É certo, sabíamos que saímos sem nunca ter a garantia da chegada, uma espécie de passaporte em branco.
A missão foi mais uma escolta de equipamentos e pessoas, para mais um dia trabalho, pertencente à JAEA (junta autónoma de estradas de Angola) até Balacende, percurso que nos levava a passar pelas famosas sete curvas.
Ao fazermos a inversão de marcha para regressar a Quicabo, recebemos ordem para fazermos uma escolta (não estava nos planos) à Beira Baixa, uma fazenda que ficava entre Balacende e Nambuangongo.
Lembro de termos contestado esta alteração de rumo, pois queríamos regressar o mais rápido possível, já estávamos cansados dos camuflados e de tanto sacrifício. Quando chegamos ao acampamento improvisado da JAEA, na Beira Baixa, logo tivemos a informação através do “transmissões”, que havia acontecido uma emboscada e já tínhamos baixas.
Precisamente nas sete curvas.
Estávamos a meio da manhã quando voltamos a Balacende e aqui podemos já sentir a mistura da revolta e consternação, para alguns (incluindo eu), era a nossa última missão.
Maldita as sete curvas, onde tanta gente jovem ali ficou.
Lá saímos de Balacende, meios silenciados, para voltar a passar na fatídica sete curvas, onde foram abatidos quatro elementos nossos e o Damas capturado, e logo no último dia de missão em cenário de guerra.
Ainda lembro os companheiros que estavam no Destacamento de Quicabo, viviam momentos de angústia, por não saberem quem teria “ficado”, apenas tinha havido conhecimento que havia baixas, mas não sabiam quem eram.
Quando cheguei… ouvi, “ o Pires não foi”.
Fazia-me lembrar quando se fazia a chamada e quem não respondesse já estaria morto.
Foi chocante ver aquelas viaturas com rombos provocados pelos rocketes e mais ainda ao dar pela falta do nosso COMPANHEIRO DAMAS.
Poderia ter sido eu!
O dia treze não tem nada a ver com o dia catorze, assim como os que são protegidos pela sorte inevitavelmente um dia serão protegidos pelo azar, se é que existe um e o outro.
Forçosamente terão que existir ambos, por serem da mesma família.
Eu, o Aniceto du Pires

A 14 de Março de 2010

DESAFIO...

Caros Camaradas...
Quero lançar um desafio a todos vós, abaixo deste texto vou postar algumas fotos que a todos recordam alguma coisa, o que pretendo é que cada um escreva um pequeno texto relacionado com alguma das fotos (certamente que todos ou quase todos nós guardamos algumas histórias destas paragens), façam um esforço e deixem a vossa memória recordar o que viveu.

QUICABO - TORREÃO (Foto de Vasco D'Órey -  Tempo antes de grande trovoada)

MARIA FERNANDA (Foto de Vasco D'Órey - Pé de café)

ALGURES ENTRE MARIA FERNANDA E BALACENDE
(Foto Vasco D'Órey - Lama na picada)

ALGURES ENTRE MARIA FERNANDA E BALACENDE
(Foto Vasco D'Órey - MVL)

BALACENDE (Foto Vasco D'Órey - Ecran de cinema)) 

FAZENDA DO MARGARIDO (Foto Vasco D'Órey)

FAZENDA TENTATIVA (Foto Vasco D'Órey - Cana de açúcar)

Espero que este meu desafio seja aceite por todos os Camaradas da CCS, CCAÇ.3340, CCAÇ.3341 e CCAÇ.3342, por isso fico a aguardar, com alguma ansiedade, as vossas missivas que poderão ser enviadas para magarciaferreira@clix.pt .
Quero apenas frisar que as fotos são apenas exemplos de momentos vividos por vós naqueles lugares ou situações.

Um abraço
Garcia Ferreira

EXEMPLO...

Companheiros,
As imagens publicadas depois deste texto, são o exemplo daquilo que pode e deve ser a vossa colaboração neste (vosso) blogue.
Foram enviadas pelo nosso amigo Correia a quem desde já agradeço com um abraço de muita saudade e referem-se aos momentos áureos da Rádio Quicabo..
Para além da imagem das instalações, podemos ainda ver o ex-Furriel Correia, o ex-Furriel Machado e ainda o ex-Furriel Paim Vieira, têm como pormenor curioso, para além de outros como as capas de alguns discos, o inseparável copo que foi grande companheiro do Paim.





Imagens com História (fotos Vasco D'Órey)



















Companheiros

Resolvi mudar o visual do nosso blogue e assim torna-lo um pouco mais atraente, espero sinceramente que esteja do vosso agrado.
Gostava de contar mais com a vossa colaboração, quer em termos de informação de interesse para todos nós quer em recordações longínquas no tempo e na distância aqui contadas na primeira pessoa... TU.
Tenho algum material (fotográfico) para publicar e gostava de o ligar aos vossos textos, deixem a preguiça de parte e escrevam, já somos crescidos para termos vergonha.
Fico à espera da vossa colaboração.
Um abraço
Garcia Ferreira

Fotos de Mota Vieira

Quicabo - Formatura
Quicabo - Jogo de Futebol
 Quicabo - Revista às Tropas
 Quicabo - Capela
 Sem comentários
Desbravando a Picada
Quicabo - Reparem bem na concentração do "safa-te p... !!!"

Quicabo - Mota Vieira e "Jack Smit" Tonel 

“Muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa”

Camaradas, Amigos, Companheiros…

Como diz a canção do Rui Veloso “muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa”, vem isto a propósito do encontro que anualmente fazemos em nome do B.CAÇ.3838 e que este ano mais uma vez vamos realizar no dia 10 de Abril próximo.

Acontece que nem todos marcamos presença por esta ou aquela razão mais ou menos justificada por cada um de nós. Por isso venho apelar a todos mas mesmo a todos que esqueçam as quezílias normais de dois anos vividos intensamente num espaço curto e duro, esqueçam o militarismo de uns e o autoritarismo de outros, esqueçam as diferenças que nos marcavam, os momentos desagradáveis que passamos são sobretudo fruto da nossa pouca vivência, recarreguem as baterias da amizade que forçosamente fizeram com quem conviveram, partilhem com todos as experiências que passaram.

Estamos quase a atingir a bonita idade de 37 anos desde que regressámos de Angola, todos ou quase todos (alguns infelizmente deixaram-nos bem cedo) constituímos família, tivemos filhos e netos, construímos um futuro… mas o passado está e estará presente e queiramos ou não vocês fazem parte do meu e eu do vosso.

Por tudo o que acabo de escrever e mais o que cada um queira ler nas entrelinhas, apelo mais uma vez a todos os Companheiros do B.Caç.3838 (CCS, 3340,3341,3342) que marquem uma presença massiva no encontro deste ano.

BEM-HAJAM

Garcia Ferreira

Ex-Fur.Milº TRMS 3340

Amigo Forte

"Sou efectivamente o ex. 1º cabo de transmissões de nome Abel Forte.

Já agora quem havia de esquecer o ex. furriel Magalhães? era um excelente rapaz, embora os defensores dos direitos dos animais não gostarão muito das façanhas que ele cometeu, e estão nas suas razões, mas caramba ele era um jovem precisava das sete vidas de cada gato, para chegar até pelo menos á idade actual, e... quem na vida não cometeu erros? Erros, depende da prespectiva de cada um. Faço lembrar ainda que o Magalhães o tal mata-gatos (não o outro em que as crianças fazem a aprendizagem nas novas tecnologias) era um equilibrista, quem não se lembra de o ver a dormir em cima das arvores?

Para todos os ex.camaradas/companheiros um abraço, para o Garcia Ferreira que tenha esperança que mais ex. apareçam por aqui nestas paginas, com bengalas,(não é o meu caso ainda)... e sem estas, com próteses, com cabelo, sem cabelo, com barriga que se (foxtrote) é a vida, mas com o coração cheio de esperança na vida.
"Forte"

Caro amigo Forte,
Quero agradecer-te em meu nome e de todos os Camaradas as tuas palavras. Eu tenho fé que muitos outros sigam o teu exemplo e que escrevam algumas linhas para o nosso Blogue, não tenham medo que o computador não morde e como tu dizes quase todos terão lá em casa o "Magalhães" dos netos, peçam-lhes que vos ensinem a usar a Internet (risos).
Fico esperando os vossos textos.
Um grande abraço
Garcia Ferreira
Camaradas,
Hoje é um pouco o dia das surpresas!... Acabo de ver no nosso blogue o comentário (abaixo) do Companheiro Forte, que penso seja o 1º Cabo de Transmissões da CCAC3340, que tanto quanto me lembro nunca apareceu nos nossos encontros.
Obrigado amigo pelo teu aparecimento aqui no nosso blogue, mas esperamos ver-te, mesmo de bengala, no nosso encontro anual, para mim e certamente para todos os Camaradas de armas vai concerteza ser uma grande alegria poder dar-te um abraço forte.
Um grande abraço
Garcia Ferreira

...Há queixas que os camaradas nunca aparecem a dizer nada aqui nas paginas do nosso "livro" histórico, nada mais natural, a vontade de alguns é muita mas entendamos que nem todos mexem ainda nesta "coisa" tecnologica, lá vai aperecendo um ou outro a coisa irá com calma e tempo, mesmo aquando de bengala ainda se vai ter muitos camaradas cá no nosso "livro".
Forte...

Camaradas,

Por certo lembram-se do grande "guerrilheiro" Magalhães (Vago Mestre da CCAÇ 3340), quantos vezes nos nossos encontros temos falado dele?... pois foi com um misto de surpresa e alegria que hoje ao abrir o meu correio electrónico, deparo com a mensagem que a seguir transcrevo no nosso blogue.

Amigo Magalhães (terror dos gatos de Quicabo), em nome de toda a familia BCAC3838 saúdo o teu regresso ao nosso seio, esperamos por ti no nosso próximo encontro anual.

Um grande abraço

Garcia Ferreira

"Boa noite, Garcia Ferreira!

Quase 37 anos volvidos, reencontro uma ligação aos meus camaradas do BCaç 3838, graças à dedicação de alguns que trabalham para reunir esta família.

Tendo passado à disponibilidade em Angola, surpreendido pela guerra entre movimentos regressei à minha terra natal, de mãos a abanar, em meados de 1975.

Subjugado pela actividade profissional, há muito tempo vinha insistindo comigo para tirar a cabeça da areia e pesquisar contactos do nosso batalhão; lamento fazê-lo só agora, pois perdi ocasiões de convívio que me teriam dado mais alento para a vida.

Tenho participado em encontros locais de ex-combatentes, mas anseio pelo próximo convívio do nosso batalhão para abraçar nos presentes toda a família que, em Quicabo, Balacende e Maria Fernanda, comigo viveu, durante dois anos, momentos perenemente gravados na nossa memória.

Um grande abraço para todos!

J.Fernando D.Magalhães

F.M.Alim. 08310070-CCaç 3340/BCaç 3838"


XICO NEVES

Amigo Neves,
Obrigado pela tua visita e pelo texto generoso.
Para os Camaradas menos acostumados com estas coisas da cibernautica, aqui ficam os passos necessários para ler o texto do Xico Neves:

Vão até á postagem onde está colocado o slide show do nosso convívio deste ano.
Imediatamente abaixo aparece uma frase que contem: Comentário 1.
Cliquem com o rato nesta frase e abrir-se-á uma caixa com o texto do Xico Neves.


Não deixem de ler atentamente o que o nosso Camarada nos diz, pois pode ser interessante para muitos.
Para os mais entendidos as minhas desculpas por esta explicação.

Um abraço para todos e em especial para o Xico Neves.

Garcia Ferreira

Mota Vieira

Começo a sentir que o blogue do B.Caç. 3838 mexe com todos, é com grande satisfação que publico o correio electrónico recebido do nosso Camarada Mota Vieira a quem desde já peço que me envie algumas fotos, pois sei que o seu acervo fotográfico não é de menor ineteresse do que o do Vasco D'Orey.

Garcia Ferreira

...Felicito vivamente o Furriel Oliveira pelo inexcedível empenho em reunir anualmente em convívio todos os elementos do Batalhão 3838, procurando-nos nos mais recônditos lugares, sem nunca esmorecer.
Idênticas felicitações ao Furriel Garcia Ferreira que em inspirada hora organizou o Blog do nosso Batalhão que está excelente. Quem faria melhor? Creio que a falta de comentários de que se queixa nada tem a ver com o seu trabalho mas talvez com a nossa "iliteracia" em lidar com as novas tecnologias... Por exemplo, tornei-me internauta há um ano, data em que me reformei e o relógio começou a andar muito mais devagar... Talvez, também, alguma timidez que a todos nós afecta e que a idade refinou.
Vasco d!Orey merece uma palavra de amizade por disponibilizar o seu importante acervo fotográfico. O nosso agradecimento.
Ao nosso Comandante, o sempre jovem Coronel Columbano Monteiro que nos acompanha em todos os convívios a nossa estima e apreço.
Endereço saudações fraternas e saudosas a todos os camaradas com votos saúde, bem-estar e longa vida, até sempre,
Manuel Mota Vieira.(3340)...